29/10/07
AMOR NA LATINHA DE LEITE
Um fato real. dois irmãozinhos maltrapilhos, provenientes da favela,
um deles de cinco anos e o outro de dez, iam pedindo um pouco de
comida pelas casas da rua que beira o morro. Estavam famintos:
- Vá trabalhar e não amole — ouvia-se detrás da porta.
- Aqui não há nada moleque — dizia outro…
As múltiplas tentativas frustradas entristeciam as crianças…
Por fim, uma senhora muito atenta disse-lhes:
– Vou ver se tenho alguma coisa para vocês… Coitadinhos!
Ela voltou com uma latinha de leite. Que festa! Ambos se sentaram
na calçada. O menorzinho disse para o de dez anos:
– Você é mais velho, tome primeiro…
E olhava para ele com seus dentes brancos, a boca semi-aberta,
mexendo a ponta da língua.
Eu, como um tolo, contemplava a cena… Se vocês vissem o mais
velho olhando de lado para o pequenino! Leva a lata à boca e,
fingindo beber, aperta fortemente os lábios para que por eles não
penetre uma só gota de leite. Depois, estendendo a lata, diz ao
irmão:
– Agora é sua vez. Só um pouco.
E o irmãozinho, dando um grande gole exclama:
– Como está gostoso!
– Agora eu — diz o mais velho.
E levando a latinha, já meio vazia, à boca, não bebe nada.
"Agora você", "agora eu", "Agora você", "Agora eu", diziam eles.
E, depois de três, quatro, cinco ou seis goles, o menorzinho, de
cabelo encaracolado, barrigudinho, com a camisa de fora, esgota
o leite todo… Ele sozinho.
Esse "agora você", "agora eu" encheram-me os olhos de lágrimas…
E então, aconteceu algo que me pareceu extraordinário. O mais velho
começou a cantar, a sambar, a jogar futebol com a lata de leite.
Estava radiante, o estômago vazio, mas o coração trasbordante de
alegria. Pulava com a naturalidade de quem não fez nada de
extraordinário, ou melhor, com a naturalidade de quem está habituado
a fazer coisas extraordinárias sem dar-lhes maior importância.
criado por pepauloradio
9:48 — Arquivado em: 
